Carta a um caso trivial

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“Confesso, sinto saudades do teu SMS à 1h da manhã. Saudades das tuas mentiras vazias de vergonha na cara. Saudades do teu beijo, hidratante natural dos meus lábios. Saudades das tuas frases feitas e repetidas em inúmeros cangotes, eu sei, faz parte do teu número de sedução no teatro da conquista. Ah, se eu não tivesse crescido, amor. Seria mais uma desperdiçadora de lágrimas salgadas carregadas de “eu não devia”. Devia? Sei lá. Se não devia, fiz porque quis. E o que eu quero é satisfazer minhas vontades, satisfiz. No mais, eu sou pós-graduada na arte de me decepcionar. Não dá nada não, minha preguiça é tamanha que sequer saio por aí a libertar meus instintos vingativos. Culpa do meu nome lavado em autoconfiança, não ficou na borda, transbordou. É da minha natureza sempre passar dos limites. Daí a frieza nas minhas respostas e a minha eventual falta de assunto. Por que desperdiçar palavras ao pé do teu ouvido sempre tão desatento e imparcial? Minha saliva é valiosa, e minha língua afiada demais, se der bobeira eu saio cortando todo mundo, partindo corações e sangrando tuas lembranças. Doa a quem doer, hoje eu to meio sádica. É.  Pensou que me conhecia bem? Agora descobriu que não entende nem um por cento do que se passa nesse meu cérebro encharcado de lembranças tuas. Boas e más. Me agarro às más lembranças. Mas nesse bar aqui da esquina, na quinta dose de tequila eu já tinha me embriagado com displicência. É isso mesmo, tanto-faz-tanto-fez. Sabe o que mais? Teu sorriso é encardido, eu odeio hálito de hortelã, desgosto dos caracois dos teus cabelos, essa barba mal feita não te faz mais homem, não vejo doçura alguma nesse teu olhar de cão-sem-dono e não me desperta desejo essa tua marra de inconsequente. Peraí, que eu me despi a compostura! Entenda: longe de mim me motivar a te ferir. É só que… ao teu revés, eu gosto da verdade esfregada a seco na cara. Então daqui a pouco eu te coloco no meu álbum enquanto você vai ficar garoteando por aí, quando voltar não me há de servir. Sou meio indócil com figurinhas repetidas. Não excluí teu contato, mudei teu nome pra “otário arrependido” e vai tocar “Ai que dó” quando você me ligar no mês que vem. E eu vou rir! Sou cínica, amor. E se nada der certo eu viro até piadista, faço desses casos uma comédia dramática e ganho dinheiro as custas da tua falta de decência. Porque, meu bem, tristeza no meu dicionário é melancolia feita pra durar apenas uma noite. SIM! Jet* sabia, I’m a cold hard bitch, e agora o teatro é meu. Sou sua última atração.

Carinhosamente,

Futura dona dos teus pensamentos.”

– Elba Cynthia

Referências – Jet*: uma banda, eu me refiro a música Cold Hard Bitch (Vadia Sangue Frio)

Você pode ver a letra da música AQUI e o vídeo a seguir (a música só começa mesmo no instante 3:40) Tiau&Miau

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8 comentários sobre “Carta a um caso trivial

  1. Vim fazer coro. Que essa carta tenha endereço certo, que não para um otario qualquer de esquina, mas para um espaço como esse que merece ser peenchido de boas palavras; e, quem sabe em um futuro não tão distante, uma editora ou alguém que queira fazer estas palavras saírem do computador e serem consumidas pelas mãos e olhos de quem puder e quiser se aventurar em boa leitura.
    Gostei, Elba. :)

  2. Nossa! Fiquei surpreendida do começo ao final. Quando comecei a ler pensei que era uma carta de saudades do amor e todos seus defeitos, mas parece mais uma carta de vingança pra mostrar o quanto vc supera e pá…
    Amei!!!!!

  3. “É isso mesmo, tanto-faz-tanto-fez. Sabe o que mais? Teu sorriso é encardido, eu odeio hálito de hortelã, desgosto dos caracois dos teus cabelos, essa barba mal feita não te faz mais homem, não vejo doçura alguma nesse teu olhar de cão-sem-dono e não me desperta desejo essa tua marra de inconsequente.”

    Caraca, Elba.
    Tá explicado o porquê de você estar escrevendo um livro.

    Tu escreve muito bem. Maravilhosamente bem! Mistura linguagem cotidiana e formal com uma ironia digna e que se encaixa perfeitamente. Sinceramente, leio vários contos, crônicas e textos em vários blogs, mas fazia TEMPOS que eu não lia um tão bom.

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