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Flashback de um adeus

the end despedida fim adeus

Daquela vez, aquela em que você foi embora, a última vez que nos vimos, a última vez que eu chorei e a vez que eu prometi que não ia mais me deixar levar.  Eu fechei a porta quando cheguei em casa, quer dizer, eu bati a porta. Gosto de dramatizar. Sou um tanto teatral. Posso sentir o tremor daquele dia agora. O tremor da parede, das tuas palavras, do meu cérebro, das minhas mãos, dos teus lábios, do meu corpo.

Eu toquei piano na mesa daquele café, um evidente nervosismo tomando conta de mim e da minha respiração. O frio lá fora e aqui dentro. Precisamos conversar, você disse antes de desligar o telefone. Precisamos conversar, eu repeti tentando encontrar um outro significado para sua frase. Um significado que não me atormentasse. Não gosto de avisos. Definitivamente.

Você cruzou a porta e eu prendi a respiração. Como na primeira vez em que nos vimos, mas dessa vez – só dessa vez – em vez de um sorriso colossal eu tinha um nó na garganta. Sofrendo por antecipação, mais uma vez – só dessa vez. Eu tentei libertar um sorriso lutando contra o medo que me sufocava, porque eu tinha certeza do que viria a seguir. Você me viu. Eu te olhei. Você me olhou. E eu fechei os olhos. Talvez pudesse me teletransportar. Caminhou na minha direção e desalinhou os cabelos loiros. Olá. Oi. Sentou. Parecíamos desconhecidos, não? E no final daquela conversa eu não me despedi com um beijo. Nada de beijos. Nada de abraços nem apertos de mãos. Até um aperto de mãos era arriscado, talvez o toque da pele me fizesse trazê-lo para perto – perto demais – e arruinar aquela conversa (que eu gostaria de arruinar) e a nossa decisão.

Eu caminhei em câmera lenta até a saída e atravessei a rua sem olhar para trás. Tive medo de encontrar teu olhar mais uma vez – só dessa vez – e desabar. Eu vivo desabando. Imaginei você caminhando atrás de mim, dessa vez na direção contrária, e vi um abismo crescendo entre nós. Eu não voltaria. Você não voltaria. Estávamos partindo. Partindo para longe um do outro. Partindo um ao outro. Eu bati a porta pra sempre naquele dia e fiquei sentada no escuro. Eu tenho medo do escuro, eu tenho medo do inseguro. É só que… Sabe? Não se põe reticências onde só cabe um ponto final. Então tchau, mon amour, au revoir.

 

– Elba Cynthia

*você pode copiar, mas dê os devidos créditos em seu blog e avise.

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Duas faces de um reflexo

espelho olhar para si mesmo

Fazia tempo eu já havia me feito essa pergunta, até onde iria sem me importar com o que fere o coração alheio? Antes que as estrelas aparecessem e o sono viesse deslocar meus pensamentos, eu já havia me respondido. Eu, em toda a minha frieza fingida, não iria a lugar algum. Não daria um passo sequer além da minha própria vergonha. Pobre de mim, os anos me fizeram assim. A mágoa nasce no coração do outro, mas o veneno se aloja no meu. Quem agoniza sou eu. Quem morre sou eu. Sofre mais a coisa que fere do que a coisa ferida. E pensando bem, eu queria dizer dane-se a esse comportamento cheio de compaixão a que aderi. Na teoria funciona bem, mas quem vive de teorias? A realidade é mais cruel e mais sádica.  Nela eu me descobri quase imoral, olhei no espelho e fui atormentada pelo rosto que estampava falta de ética, mas no espelho não era a minha imagem, era só no que a paranoia gostaria que eu acreditasse. Eu pisquei milhares de vezes até voltar a ver a face complacente e constrangida que me era de natureza. Depois de muito pensar, eu descobri que as duas eram eu. A primeira surgia quando eu punha minhas vontades em primeiro lugar, a segunda quando eu recolhia meus desejos em prol de alguém. Não é algo que eu possa controlar, fico me equilibrando em dois dilemas, mas quem fica em cima do muro sempre cai. A queda pode favorecer o meu ego e decepcionar o alheio, ou pode tapar minha garganta enquanto a do outro grita de felicidade. Eu opto pela segunda quando vejo total necessidade. Talvez pelo medo de perder as pessoas, não para a morte, mas enquanto elas ainda vivem.  Então com os pés no chão eu tentei novamente responder a primeira pergunta, e descobri que daria alguns passos sem me importar com o que fere o coração alheio, só por saber que de qualquer maneira depois quem sempre agoniza sou eu, quem morre sou eu, com a essência do veneno que eu mesma criei.

– Elba Cynthia

*Se você copiar, avise e dê os créditos.

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Carta a um caso trivial

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“Confesso, sinto saudades do teu SMS à 1h da manhã. Saudades das tuas mentiras vazias de vergonha na cara. Saudades do teu beijo, hidratante natural dos meus lábios. Saudades das tuas frases feitas e repetidas em inúmeros cangotes, eu sei, faz parte do teu número de sedução no teatro da conquista. Ah, se eu não tivesse crescido, amor. Seria mais uma desperdiçadora de lágrimas salgadas carregadas de “eu não devia”. Devia? Sei lá. Se não devia, fiz porque quis. E o que eu quero é satisfazer minhas vontades, satisfiz. No mais, eu sou pós-graduada na arte de me decepcionar. Não dá nada não, minha preguiça é tamanha que sequer saio por aí a libertar meus instintos vingativos. Culpa do meu nome lavado em autoconfiança, não ficou na borda, transbordou. É da minha natureza sempre passar dos limites. Daí a frieza nas minhas respostas e a minha eventual falta de assunto. Por que desperdiçar palavras ao pé do teu ouvido sempre tão desatento e imparcial? Minha saliva é valiosa, e minha língua afiada demais, se der bobeira eu saio cortando todo mundo, partindo corações e sangrando tuas lembranças. Doa a quem doer, hoje eu to meio sádica. É.  Pensou que me conhecia bem? Agora descobriu que não entende nem um por cento do que se passa nesse meu cérebro encharcado de lembranças tuas. Boas e más. Me agarro às más lembranças. Mas nesse bar aqui da esquina, na quinta dose de tequila eu já tinha me embriagado com displicência. É isso mesmo, tanto-faz-tanto-fez. Sabe o que mais? Teu sorriso é encardido, eu odeio hálito de hortelã, desgosto dos caracois dos teus cabelos, essa barba mal feita não te faz mais homem, não vejo doçura alguma nesse teu olhar de cão-sem-dono e não me desperta desejo essa tua marra de inconsequente. Peraí, que eu me despi a compostura! Entenda: longe de mim me motivar a te ferir. É só que… ao teu revés, eu gosto da verdade esfregada a seco na cara. Então daqui a pouco eu te coloco no meu álbum enquanto você vai ficar garoteando por aí, quando voltar não me há de servir. Sou meio indócil com figurinhas repetidas. Não excluí teu contato, mudei teu nome pra “otário arrependido” e vai tocar “Ai que dó” quando você me ligar no mês que vem. E eu vou rir! Sou cínica, amor. E se nada der certo eu viro até piadista, faço desses casos uma comédia dramática e ganho dinheiro as custas da tua falta de decência. Porque, meu bem, tristeza no meu dicionário é melancolia feita pra durar apenas uma noite. SIM! Jet* sabia, I’m a cold hard bitch, e agora o teatro é meu. Sou sua última atração.

Carinhosamente,

Futura dona dos teus pensamentos.”

– Elba Cynthia

Referências – Jet*: uma banda, eu me refiro a música Cold Hard Bitch (Vadia Sangue Frio)

Você pode ver a letra da música AQUI e o vídeo a seguir (a música só começa mesmo no instante 3:40) Tiau&Miau

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Atada às tuas lembranças

triste

Eu acordei, tateei o espaço vazio ao meu lado de olhos fechados na esperança de que por algum maravilhoso engano você estivesse ali, intacto. Fiquei sentada na cama por longos segundos, porque agora era assim, o tempo se arrastava sem você por perto. Procurei teus vestígios, mas eles só existiam na minha memória. Cada canto daquele cubículo infeliz lembrava teu cheiro, teu riso, teu falar. Tudo inalterado, as coisas ainda estavam no mesmo lugar, exceto minha felicidade. Nossa felicidade. O barulho da chuva acompanhando o ritmo do meu pobre coração, chuviscado, esmagado. E embora não houvesse grades, minhas lembranças eram uma prisão. Algemada pelo teu calor, que eu já não sentiria. Amordaçada pelas tuas declarações de amor que nunca mais seriam repetidas. Torturada pela tua ausência eterna e nada suportável. Peguei o telefone só pra ouvir a tua voz mais uma vez nos recados antigos da caixa postal. A mão trêmula, o peito vazio. Presa no ritual diário de conviver com tua inexistência. Uma vontade de me jogar pela janela do terceiro andar pra não ter que sentir mais nada. Deixar a chuva molhar meu rosto e lavar minha alma. Em vez disso olho para o bar na sala, tudo que eu preciso: uma taça, uma garrafa. Embriaguez semanal. Cada resquício se apagando em cada golada. Até não restar mais nada. Não sentir mais nada. Nem teu hálito de canela. Nem teus comentários desapropriados. Nem tua risada serena. Nem tuas manias. Nem tua presença irreal. Até eu entender que embora não possa viver sem você, aqui estou. E que, sim, acabou, como tudo que é realmente bom. Até a tequila.

– Elba Cynthia

*você pode copiar, mas dê os devidos créditos em seu blog e avise.

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Sobre o prazer de ler você

livro e ler

Naquele café da esquina, de frente pra tua figura esperançosa, poderia ter dito mais do que palavras de inverno, encolhidas de frieza e tremidas dando a luz a frases sem sentido. Mas esse meu não querer, ainda é bem querer. Só não é mais desejar. Assim como aquele livro caro na prateleira da loja, eu te devorei ali mesmo enquanto não podia e no final da tarde não te levei pra casa. Sem frustrações, de certo o li e o decifrei sem gastar nenhum centavo, daí então virei a última página e me retirei da loja satisfeita com a leitura, mas sem vontade de voltar.  Naquela mesma prateleira, ou em outra contendo livros baratos, certo dia me encantei com um que eu pude comprar. O barato eu levei e não li até o final. Parei no sétimo capitulo dos dez, porque certas histórias são melhores quando não terminam e deixam margem para que criemos sozinhos o que antecede o ponto final. Não tenho voltado na livraria, nem tenho relido livros antigos. Apenas me privei da leitura um pouco, como alguém que dá um tempo com um amor antigo. De fato, voltarei aos livros. Dessa vez talvez eu esqueça os dramas e volte meu olhar para comédias e romances de final feliz. E na prateleira da loja alguém há de pagar pelo livro que aproveitei sem comprar.

– Elba Cynthia

*você pode copiar, mas dê os devidos créditos em seu blog.